em clima de formaturas
eu cheguei na universidade cheia de machucados. porque essa gente que é mulher negra, periférica, de família que migra do nordeste, estudante de escola pública, é machucada desde sempre, desde o nascer, desde muito antes de nascer, desde a sua ancestralidade.
eu cheguei na universidade em um cenário construído historicamente pra não acolher essas e outras experiências, pra forçá-las entrar em um jogo de "só existe aqui se engolir nossas teorias de homens brancos e europeus e estado-unidenses" . Só existe aqui se não for você, se travar uma luta abismal e mortificante de tentar se aproximar do moço branco que domina todos os conceitos, que leu todos os livros de marx, que monopoliza a fala e é o modelo de fala e de trajetória pra todas e todos os outros seguirem.
e eu vou contar p'cês que isso doeu. doeu muito. e dói, porque as estruturas discriminatórias e violentas não acabaram.
mas eu vou contar também que os ventos de tempestade e de serenidade sopraram e arrumaram minha casa interior. que eu encontrei e fui encontrada por jeitos de viver mais perto de ser plena. que eu retornei à casa quando me afastei (ou fui afastada) da forma mais potente de resistir: com as nossas, com minhas irmãs, primas, amigas, mais velhas, com os parceiros, amigos...
e agora nessa pseudo reta final (me formo na licenciatura agora, mas continuo pro bacharel), nesse fim de des-caminho que trilhei, teve um momento-processo que eu percebi que me curar desses machucados era necessário. mais que isso, que era possível. que minhas amigas acadêmicas maravilhosas, são incríveis e doam muito pra transformar esse mundo. que eu posso e que eu sou. que eu também posso transformar esse mundo.
e esse processo passou pela dor de me perceber inferiorizada. em paralelo, pelo reconhecimento e entendimento de como isso acontece com pessoas como eu.
e se eu posso eleger um momento marcante de transformação interna, foi esse que eu disse pra mim mesma, baixinho e serenando no peito e na mente:
e se eu posso eleger um momento marcante de transformação interna, foi esse que eu disse pra mim mesma, baixinho e serenando no peito e na mente:
"a partir de agora, escreva e seja as suas verdades"
e escrever, pensar e sentir isso tem a ver com criticar as mentiras racistas, misóginas, LGBTTQ+ fóbicas, classistas ... passa por estar rodeada de mulheres que me fizeram sentir e entender que costurar nossas próprias formas de comunalidade, de amor interior é a forma mais curativa e potente de não jogar o jogo genocida do patriarcado.
passa por minha mãe, minha avó, minhas irmãs, amigas, meus territórios, pelas memórias encobertas que nos fazem esquecer ou não saber que nossa força, beleza e luta é ancestral, coletiva e sempre presente, mesmo quando não parece. quando é secreto. quando é estratégico.
enfim, termino essa primeira etapa da graduação em processo de cura, contente por conseguir compartilhar minhas verdades, fragilidades e forças
quedo e encerro um ciclo com bell hooks, a primeira intelectual que tive contato pra conseguir encontrar minhas verdades e me curar dos machucados
“Encontrei um lugar onde eu podia imaginar futuros possíveis, um lugar onde a vida podia ser diferente. Essa experiência “vivida” de pensamento crítico, de reflexão e análise se tornou um lugar onde eu trabalhava para explicar a mágoa e fazê-la ir embora. Fundamentalmente, essa experiência me ensinou que a teoria pode ser um lugar de cura. (...) Quando nossa experiência vivida da teorização está fundamentalmente ligada a processos de autorrecuperação, de libertação coletiva, não existe brecha entre a teoria e a prática.
bell hooks em "Ensinando a Transgredir"
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