quarta-feira, 23 de março de 2022

 Poesia é superfície e beleza 

e também o horror e o profundo do que somos 

Nos apaixonamos pela ficção das pessoas 

Pelas projeções do que idealizamos, 

do que achamos belo, perfeito, inatingível 

por tudo que não somos e não temos 

Tudo nela brilha e encanta 

Mas há, nela, à luz do dia 

ou na surdina, 

escondida no escuro do quarto 

as dores, o choro, o riso feio e escancarado

a humanidade plena dela 


a gente se apaixona por ficções das pessoas

e escolhe muito pouco amar a realidade 



terça-feira, 12 de maio de 2020

Noite. Fim de um dia chuvoso. Minha avó diz que o a chuva traz consigo, saudade de quem tá longe. Por forças de uma pandemia mundial estou sem conseguir voltar pra casa.
Passei o dia das mães longe de minha mãe. Passarei o dia do aniversário de meu pai longe dele.
E, hoje, meu acordar me confundiu e me levou pra casa. Bem naquele momento limiar entre o sono e a realidade, aquele primeiro acordar lento em que a realidade parece ter um pouco de compaixão e vai se estabelecendo com serenidade e calma, eu senti-ouvi-pensei estar em casa. E estive.
No sonido da chuva - aquela que traz consigo, saudade de quem tá longe - ouvi as risadas de minha mãe, suas brigas com as nossas gatas que mijam nos tapetes, as conversas entre ela, meu pai e meus irmãos.
Uma ilusão que trouxe afago me despertou pro dia. Um dia depois do dia das mães, que eu passei longe dela. Nesse contexto, muito de mim tem sido dor e preocupação com os meus, principalmente com minha mãe. Tenho sido mais gentil comigo mesma em reconhecer e acolher o medo incomensurável que tenho de perdê-la.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro 2

Ano passado eu descobrir o que é morrer. Várias e várias vezes. Descobri um diagnóstico de transtorno de ansiedade e pânico, junto da percepção de que talvez a ansiedade que paralisa a vida me acompanhou não só nesse ano de crises, mas toda a vida.

Ano passado eu fui descobrindo a ansiedade crescer, me paralisar a vida e me convencer quase todos os dias de que algo muito ruim estava por acontecer, que eu morreria, que alguém que eu amo morreria. Passei a ter um medo tremendo de adquirir alguma doença grave, que quem eu amo adquirisse doenças graves. Eu descobri que talvez essas sensações foram sempre me acompanhando, desde pequena, que ano passado só foi o estopim, a última gota pra transbordar.

Descobri um novo sentido pra canção de Gil "não tenho medo da morte, mas de morrer sim/Qual seria a diferença, você há de perguntar/ É que a morte já é depois que eu deixar de respirar/ Morrer ainda é aqui/ Na vida, no sol, no ar". Morrer ainda é aqui, e eu morri várias vezes. E apesar da agrura e da dor que é passar por isso, eu, que passei, te digo: doeu, eu senti as piores dores da fragilidade, do medo, do pavor, do desespero, mas eu também revivi as doçuras e suspiros de ter passado por tudo e ter sobrevivido, com as forças possíveis que eu tinha pra passar (e ainda estou passando) por aquilo tudo. Mas eu tive apoio, gente disposta e entender e me ouvir. Mas também teve gente que eu amo muito sem conseguir entender e adquirir empatia. Sim, eu aprendi que empatia a gente constrói, e é no diálogo. E se saúde e sofrimento mental permanecem um grande tabu envolto de preconceito a gente vai continuar assim, sem empatia e tato com quem sofre. Eu tive que recolher forças pra ter didática e sensibilidade, no meio da dor toda, pra explicar pra essas pessoas tudo que eu tava passando. E, juntas, a gente foi construindo outra forma de enxergar essa dor, de acolher ela e aprender a lidar com ela.

Também aprendi outra forma, aquela mais egoísta, de ter empatia, que é só quando a gente sente na pele. Olhei pras várias situações que eu fui a pessoa que precisava construir e desconstruir as formas de acolher e entender. Que a premissa não é se "colocar no lugar" da pessoa, porque isso é impossível. Que é muito mais efetivo se colocar ao lado, dar a mão, um abraço, as vezes em silencio mesmo, que não carece dizer, recomendar o que fazer ou apontar o que a pessoa faz de errado conforme o seu critério de errado. Cada pessoa é um universo de complexidade e subjetividade e compreender isso nos desloca um pouquinho do nosso ego.


Foi e ainda está sendo horrível. Não é um processo fácil. Mas eu quero que saiba Elen de agora e do futuro, olhando e entendendo essa Elen que já passou por parte do processo: você tá caminhando, que as vezes parece impossível, mas tu viu depois que o caos passou, que foi possível sim. Tu superou, respirou, voltou a acreditar, se concentrou no que dá pra fazer agora e seguiu seu processo. Mas dói, eu sei.

E pra finalizar quero deixar bem escuro que não superei a ansiedade, não acredito numa cura completa e total. Foi a última coisa que aprendi, porque eu, na minha ânsia virginiana fazia tudo - os tratamentos, a alimentação, exercícios - acreditando que eu me "curaria" da ansiedade como em mágica. Acredito que é muito mais sobre aprender a viver, a acolher, olhar pra si e pro mundo. É sobre um processo e eu estarei permanentemente nele enquanto respirar.







terça-feira, 14 de janeiro de 2020

" Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro "

Firmo a prece no coração e na mente e a entoo como mantra:  "ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro"...
Ano passado eu morri várias vezes, e esse ano eu buscarei nas entranhas as fragilidades e as fortalezas que me guiem em um processo de cura. Esse ano eu não morro!

Eu me lembro que no primeiro dia do ano, logo depois da virada, eu senti que não seria um ano fácil 
Prontamente eu associei ao cenário político, porque naquele mesmo dia um general racista, LFBTQfóbico, machista assumiria o poder 
Não seria um ano fácil em vários sentidos. Nesse mesmo dia esse mundo e eu perdemos a Leona. Uma mulher trans, periférica, intensa, cheia de vida e amor, de um sorriso tão gigante e iluminado. Eu soube no dia seguinte essa perda e chorei muito. 

foi a finalização do meu primeiro curso de graduação e havia descoberto que fui classificada em um concurso de cargo temporário como educadora. Tive muito medo, questionei se era isso mesmo, ser educadora, que eu realmente queria. Entrei em um ciclo sem fim de medo e ansiedade sobre isso. Decidi não assumir a vaga a que fui chamada e isso gerou em mim um processo de culpa e medo imensos. 
Tentei viver depois disso, aproveitei o carnaval como nunca antes e logo depois a minha primeira e a pior crise de pânico-ansiedade. Acho que foi ali que as mortes começaram. Não sabia que uma crise de pânico imitava a morte até ali. Era como se estivesse aos poucos e lentamente sumindo. Passei a noite e um dia com uma angustia e aperto no peito que logo em seguida se manifestaram nesse pico de ansiedade que convence o corpo e a mente de que algo muito ruim estava por acontecer.

Convivendo com a ansiedade entendi melhor esse verso "ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro". Porque ano passado eu morri várias vezes, lentamente, ao mesmo tempo que em uma velocidade absurda. Mas esse ano eu não quero morrer mais. 
Terminei 2019 com a decisão de começar um tratamento com medicação. E por isso os efeitos colaterais se arrastaram pra o início desse ano. Eu sou dessas de acreditar que a forma como a gente começa o ano irradia um pouco para como esse ano será vivido. No início, com a minha mente virginiana, triste, pensei que o ano inteiro seria esse momento horrivel dos efeitos colaterais. 
Mas percebi que há um outro ponto muito mais positivo que é o de pensar que esse ano eu vou ter mais força e fé pra acolher minhas fragilidades e me encontrar com um processsode cura e auto-amor. 

"Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro"

Asssim seja
Axé!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Ôrísà




me ensina como desviar o olhar desse amanhã que tenta se instalar agora
me convencendo de que morri várias vezes no passado
e continuarei morrendo no futuro





sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Quando criança o pai sempre brincava comigo e meus irmãos 
Brincava de inventar e repassar histórias do mundo fantástico de lobisomens e mulas sem cabeça da terra-Bahia que chama de seu lar até hoje,  diante da esperança de um dia voltar
 quando se sente preso na terra-Brasilia

Brincava de confeccionar pipa de papel e sacola pra sentir junto da gente a sensação mesmo que ilusória de liberdade ao vê-las voarem supostamente livres no céu  

Meu pai sempre foi um homem singelo.
 Sereno e calmo apesar das intempéries da vida
Inventa e reinventa a vida a partir de qualquer material considerado lixo
Vigiando casas e prédios inteiros durante a noite pra assegurar a vida de uns enquanto temia a total falta de segurança dos seus 
Pintando paredes coloridas de sonhos e os oferecendo a nós 

Sempre retirando da escassez mundos possíveis de se viver com dignidade 
Meu pai é dessa gente que improvisa sonhos e doa aos filhos e filhas 
Não ocupa nenhum cargo de alto escalão na sociedade, está do lado da desigualdade que retira de seu grupo qualquer possibilidade subsistência pra viver e almejar  

Guerreiro de ancestralidades adentro na alma e na história 
De um povo que soube sempre improvisar sonhos 
E construir com as mãos cidades inteiras, mundos inteiros pra que nós pudéssemos brincar

domingo, 16 de dezembro de 2018

em clima de formaturas
eu cheguei na universidade cheia de machucados. porque essa gente que é mulher negra, periférica, de família que migra do nordeste, estudante de escola pública, é machucada desde sempre, desde o nascer, desde muito antes de nascer, desde a sua ancestralidade.
eu cheguei na universidade em um cenário construído historicamente pra não acolher essas e outras experiências, pra forçá-las entrar em um jogo de "só existe aqui se engolir nossas teorias de homens brancos e europeus e estado-unidenses" . Só existe aqui se não for você, se travar uma luta abismal e mortificante de tentar se aproximar do moço branco que domina todos os conceitos, que leu todos os livros de marx, que monopoliza a fala e é o modelo de fala e de trajetória pra todas e todos os outros seguirem.
e eu vou contar p'cês que isso doeu. doeu muito. e dói, porque as estruturas discriminatórias e violentas não acabaram.
mas eu vou contar também que os ventos de tempestade e de serenidade sopraram e arrumaram minha casa interior. que eu encontrei e fui encontrada por jeitos de viver mais perto de ser plena. que eu retornei à casa quando me afastei (ou fui afastada) da forma mais potente de resistir: com as nossas, com minhas irmãs, primas, amigas, mais velhas, com os parceiros, amigos...
e agora nessa pseudo reta final (me formo na licenciatura agora, mas continuo pro bacharel), nesse fim de des-caminho que trilhei, teve um momento-processo que eu percebi que me curar desses machucados era necessário. mais que isso, que era possível. que minhas amigas acadêmicas maravilhosas, são incríveis e doam muito pra transformar esse mundo. que eu posso e que eu sou. que eu também posso transformar esse mundo.
e esse processo passou pela dor de me perceber inferiorizada. em paralelo, pelo reconhecimento e entendimento de como isso acontece com pessoas como eu.
e se eu posso eleger um momento marcante de transformação interna, foi esse que eu disse pra mim mesma, baixinho e serenando no peito e na mente:
"a partir de agora, escreva e seja as suas verdades"
e escrever, pensar e sentir isso tem a ver com criticar as mentiras racistas, misóginas, LGBTTQ+ fóbicas, classistas ... passa por estar rodeada de mulheres que me fizeram sentir e entender que costurar nossas próprias formas de comunalidade, de amor interior é a forma mais curativa e potente de não jogar o jogo genocida do patriarcado.
passa por minha mãe, minha avó, minhas irmãs, amigas, meus territórios, pelas memórias encobertas que nos fazem esquecer ou não saber que nossa força, beleza e luta é ancestral, coletiva e sempre presente, mesmo quando não parece. quando é secreto. quando é estratégico.
enfim, termino essa primeira etapa da graduação em processo de cura, contente por conseguir compartilhar minhas verdades, fragilidades e forças
quedo e encerro um ciclo com bell hooks, a primeira intelectual que tive contato pra conseguir encontrar minhas verdades e me curar dos machucados
“Encontrei um lugar onde eu podia imaginar futuros possíveis, um lugar onde a vida podia ser diferente. Essa experiência “vivida” de pensamento crítico, de reflexão e análise se tornou um lugar onde eu trabalhava para explicar a mágoa e fazê-la ir embora. Fundamentalmente, essa experiência me ensinou que a teoria pode ser um lugar de cura. (...) Quando nossa experiência vivida da teorização está fundamentalmente ligada a processos de autorrecuperação, de libertação coletiva, não existe brecha entre a teoria e a prática.
bell hooks em "Ensinando a Transgredir"