terça-feira, 24 de outubro de 2017

interseccionalidade

meu dom averso de comunicar
enveredou tropeços em meus pés
a caminhar em avenidas tráfegas de carros e gentes 
silenciando ...


domingo, 22 de outubro de 2017

ouvi e senti:
"falar é brigar pela fala"
e eu queria serenar a fala
e eu queria só ser, como na canção de Gil
cansada eu tava
eu, cordeiro de nanã
queria serenar
queria o mar sereno
mas, epa
ele raramente é.

sábado, 10 de junho de 2017

uma pessoa que estimo ao ler um de meus escritos,
admirou a forma como ia concebendo o texto "na busca de mim mesma".
me pergunto em qual lugar de minha vida eu não sido essa busca de mim mesma
se tudo em mim me caça,
tem pressa em encontrar os pedaços que foram sendo arrancados impositivamente
cujo caminho inundam rios, sopram ventos e tempestades em meus olhos
do de viver plenamente as dore encontro suspiros de liberdade
entrecortando as angustias

me pergunto também se pode haver alguém no mundo
que possui a tranquilidade de se sentir e se saber
com alguma precisão
com esse elemento que busco desesperadamente
em meio aos alheamentos :
o "próprio", essência da autonomia
amor interior
emanado e transbordado

sei que existe o privilégio de nem sequer questionar se é possível alguém viver se buscando
pois que o mundo já fora todo forjado para que se sinta em casa
no aconchego e na mansidão
cujo ninho é construído das mais diversas dores.

Tempo de cura e de me amar
me diz que o caminho de me encontrar
é de onde pulso
de onde sigo na insurgência
de ser





segunda-feira, 24 de abril de 2017

No tempo de menina eu achava que o tanquinho de lavar roupas fazia nuvens no chão. Criando o mundo ali, quando o tanquinho terminava de lavar a roupa e minha mãe soltava a mangueira da parte de trás pra água-espuma-nuvem sair era certeiro que a sensibilidade conectasse as semelhanças e o voo da imaginação começasse bater asas. A espuma ia deslizando e tomando conta do quintal inteiro de casa. E aí as nuvens do céu eram espumas que os tanquinhos de lavar roupas soltavam pela mangueira de despejar a água-espumante nos dias de labuta das mulheres que moravam lá. E assim tinha criado a explicação de como as nuvens se formam.
O brincar de alturas tocáveis começou nesse criar infantil de possibilidades pra desmanchar a necessidade de objetividade e concretude das coisas do mundo. Pra conectar o céu e chão sem nenhum problema ou desajuste.
Tenho na memória do corpo a sensação de caminhar em nuvens cheirosas de sabão e amaciante. Sempre que vou ao mercado, agora adulta, e passo pela sessão de amaciante de roupas o corpo se manifesta em sentir flutuações.
Tenho na memória do olhar a pele negra de minha mãe reluzindo um suor quase imperceptível enquanto fazia o trabalho doméstico. Um suor iluminado. Como eu amava mirar os gestos de minha mãe na lida cotidiana. As vezes eu parava de fazer minha parte do trabalho e pairava em admirá-la de onde eu estava. Pra tentar me fazer sentir, aos meus olhos ela era o ser mais lindo e delicado que existia no mundo. Era minha mãe e era linda, e tinha nos gestos do corpo a beleza de um rio, sereno e profundo.
Tenho na memória do espaço o quintal gigante como o céu pra correr entre as nuvens. Pra brincar entre as plantas que o meu pai plantou e carinhosamente cuidava todos os dias pra realocar um pouquinho de sua Bahia de brejo, buritis e areia branca na nossa casa-periferia de Brasília.
E na memória do paladar, depois da brincadeira de inventar céus no chão com a irmãzinha e o irmão mais velho, poder comer o cuscuz quentinho com manteiga de garrafa acompanhado de chá de capim santo, meu chá predileto desde então.
Das memórias singelas e grandiosas que o meu corpo-espírito acolhe e é fruto.

Com todo amor e saudade
Para Cleuza, Manoel, Alyne e Douglas


segunda-feira, 10 de abril de 2017

tô aqui recordando o dia que passei no vestibular
era a quinta tentativa
desisti de psicologia, agora era ciências sociais
já tinha desistido de passar também, trabalhava numa call center (uma das piores fases de minha vida)
quando o resultado saiu eu tava no trampo, coloquei pausa para o banheiro de cinco minutos (sim, existe esse sistema de trabalho até hoje) e com coração num mix de sentimento
EU PASSEI
mãe chorou e riu comigo
pai começou a espalhar pra todo mundo que a filha seria professora, com um brilho novo nos olhos
vô me chamou pra dançar durinho, jogando o corpo, todo brincante. só falou isso
primeira em gerações da família a passar numa universidade ( e isso não é de se orgulhar)
eu era um ser com mil expectativas
é certo que a universidade foi matando algumas delas
a universidade é um grande desafio para corpos, almas e mentes não-brancas
mas meu amor, encontrei e fui encontrada por rincões aquilombados de afeto e poesia pra expressar as angustias e produzir os trampos acadêmicos com os meus sopros de vida. Desde dentro, desde a minha ancestralidade.
e entre as belezas e as feiuras de ocupar este espaço, sigo na fé, no axé,
acolhendo minhas fragilidades e enaltecendo minhas forças