Ano passado eu descobrir o que é morrer. Várias e várias vezes. Descobri um diagnóstico de transtorno de ansiedade e pânico, junto da percepção de que talvez a ansiedade que paralisa a vida me acompanhou não só nesse ano de crises, mas toda a vida.
Ano passado eu fui descobrindo a ansiedade crescer, me paralisar a vida e me convencer quase todos os dias de que algo muito ruim estava por acontecer, que eu morreria, que alguém que eu amo morreria. Passei a ter um medo tremendo de adquirir alguma doença grave, que quem eu amo adquirisse doenças graves. Eu descobri que talvez essas sensações foram sempre me acompanhando, desde pequena, que ano passado só foi o estopim, a última gota pra transbordar.
Descobri um novo sentido pra canção de Gil "não tenho medo da morte, mas de morrer sim/Qual seria a diferença, você há de perguntar/ É que a morte já é depois que eu deixar de respirar/ Morrer ainda é aqui/ Na vida, no sol, no ar". Morrer ainda é aqui, e eu morri várias vezes. E apesar da agrura e da dor que é passar por isso, eu, que passei, te digo: doeu, eu senti as piores dores da fragilidade, do medo, do pavor, do desespero, mas eu também revivi as doçuras e suspiros de ter passado por tudo e ter sobrevivido, com as forças possíveis que eu tinha pra passar (e ainda estou passando) por aquilo tudo. Mas eu tive apoio, gente disposta e entender e me ouvir. Mas também teve gente que eu amo muito sem conseguir entender e adquirir empatia. Sim, eu aprendi que empatia a gente constrói, e é no diálogo. E se saúde e sofrimento mental permanecem um grande tabu envolto de preconceito a gente vai continuar assim, sem empatia e tato com quem sofre. Eu tive que recolher forças pra ter didática e sensibilidade, no meio da dor toda, pra explicar pra essas pessoas tudo que eu tava passando. E, juntas, a gente foi construindo outra forma de enxergar essa dor, de acolher ela e aprender a lidar com ela.
Também aprendi outra forma, aquela mais egoísta, de ter empatia, que é só quando a gente sente na pele. Olhei pras várias situações que eu fui a pessoa que precisava construir e desconstruir as formas de acolher e entender. Que a premissa não é se "colocar no lugar" da pessoa, porque isso é impossível. Que é muito mais efetivo se colocar ao lado, dar a mão, um abraço, as vezes em silencio mesmo, que não carece dizer, recomendar o que fazer ou apontar o que a pessoa faz de errado conforme o seu critério de errado. Cada pessoa é um universo de complexidade e subjetividade e compreender isso nos desloca um pouquinho do nosso ego.
Foi e ainda está sendo horrível. Não é um processo fácil. Mas eu quero que saiba Elen de agora e do futuro, olhando e entendendo essa Elen que já passou por parte do processo: você tá caminhando, que as vezes parece impossível, mas tu viu depois que o caos passou, que foi possível sim. Tu superou, respirou, voltou a acreditar, se concentrou no que dá pra fazer agora e seguiu seu processo. Mas dói, eu sei.
E pra finalizar quero deixar bem escuro que não superei a ansiedade, não acredito numa cura completa e total. Foi a última coisa que aprendi, porque eu, na minha ânsia virginiana fazia tudo - os tratamentos, a alimentação, exercícios - acreditando que eu me "curaria" da ansiedade como em mágica. Acredito que é muito mais sobre aprender a viver, a acolher, olhar pra si e pro mundo. É sobre um processo e eu estarei permanentemente nele enquanto respirar.