segunda-feira, 24 de abril de 2017

No tempo de menina eu achava que o tanquinho de lavar roupas fazia nuvens no chão. Criando o mundo ali, quando o tanquinho terminava de lavar a roupa e minha mãe soltava a mangueira da parte de trás pra água-espuma-nuvem sair era certeiro que a sensibilidade conectasse as semelhanças e o voo da imaginação começasse bater asas. A espuma ia deslizando e tomando conta do quintal inteiro de casa. E aí as nuvens do céu eram espumas que os tanquinhos de lavar roupas soltavam pela mangueira de despejar a água-espumante nos dias de labuta das mulheres que moravam lá. E assim tinha criado a explicação de como as nuvens se formam.
O brincar de alturas tocáveis começou nesse criar infantil de possibilidades pra desmanchar a necessidade de objetividade e concretude das coisas do mundo. Pra conectar o céu e chão sem nenhum problema ou desajuste.
Tenho na memória do corpo a sensação de caminhar em nuvens cheirosas de sabão e amaciante. Sempre que vou ao mercado, agora adulta, e passo pela sessão de amaciante de roupas o corpo se manifesta em sentir flutuações.
Tenho na memória do olhar a pele negra de minha mãe reluzindo um suor quase imperceptível enquanto fazia o trabalho doméstico. Um suor iluminado. Como eu amava mirar os gestos de minha mãe na lida cotidiana. As vezes eu parava de fazer minha parte do trabalho e pairava em admirá-la de onde eu estava. Pra tentar me fazer sentir, aos meus olhos ela era o ser mais lindo e delicado que existia no mundo. Era minha mãe e era linda, e tinha nos gestos do corpo a beleza de um rio, sereno e profundo.
Tenho na memória do espaço o quintal gigante como o céu pra correr entre as nuvens. Pra brincar entre as plantas que o meu pai plantou e carinhosamente cuidava todos os dias pra realocar um pouquinho de sua Bahia de brejo, buritis e areia branca na nossa casa-periferia de Brasília.
E na memória do paladar, depois da brincadeira de inventar céus no chão com a irmãzinha e o irmão mais velho, poder comer o cuscuz quentinho com manteiga de garrafa acompanhado de chá de capim santo, meu chá predileto desde então.
Das memórias singelas e grandiosas que o meu corpo-espírito acolhe e é fruto.

Com todo amor e saudade
Para Cleuza, Manoel, Alyne e Douglas


segunda-feira, 10 de abril de 2017

tô aqui recordando o dia que passei no vestibular
era a quinta tentativa
desisti de psicologia, agora era ciências sociais
já tinha desistido de passar também, trabalhava numa call center (uma das piores fases de minha vida)
quando o resultado saiu eu tava no trampo, coloquei pausa para o banheiro de cinco minutos (sim, existe esse sistema de trabalho até hoje) e com coração num mix de sentimento
EU PASSEI
mãe chorou e riu comigo
pai começou a espalhar pra todo mundo que a filha seria professora, com um brilho novo nos olhos
vô me chamou pra dançar durinho, jogando o corpo, todo brincante. só falou isso
primeira em gerações da família a passar numa universidade ( e isso não é de se orgulhar)
eu era um ser com mil expectativas
é certo que a universidade foi matando algumas delas
a universidade é um grande desafio para corpos, almas e mentes não-brancas
mas meu amor, encontrei e fui encontrada por rincões aquilombados de afeto e poesia pra expressar as angustias e produzir os trampos acadêmicos com os meus sopros de vida. Desde dentro, desde a minha ancestralidade.
e entre as belezas e as feiuras de ocupar este espaço, sigo na fé, no axé,
acolhendo minhas fragilidades e enaltecendo minhas forças