No tempo de menina eu achava que o
tanquinho de lavar roupas fazia nuvens no chão. Criando o mundo ali,
quando o tanquinho terminava de lavar a roupa e minha mãe soltava a
mangueira da parte de trás pra água-espuma-nuvem sair era certeiro
que a sensibilidade conectasse as semelhanças e o voo da imaginação
começasse bater asas. A espuma ia deslizando e tomando conta do
quintal inteiro de casa. E aí as nuvens do céu eram espumas que os
tanquinhos de lavar roupas soltavam pela mangueira de despejar a
água-espumante nos dias de labuta das mulheres que moravam lá. E
assim tinha criado a explicação de como as nuvens se formam.
O brincar de alturas tocáveis começou
nesse criar infantil de possibilidades pra desmanchar a necessidade
de objetividade e concretude das coisas do mundo. Pra conectar o céu
e chão sem nenhum problema ou desajuste.
Tenho na memória do corpo a sensação
de caminhar em nuvens cheirosas de sabão e amaciante. Sempre que vou
ao mercado, agora adulta, e passo pela sessão de amaciante de roupas
o corpo se manifesta em sentir flutuações.
Tenho na memória do olhar a pele negra
de minha mãe reluzindo um suor quase imperceptível enquanto fazia o
trabalho doméstico. Um suor iluminado. Como eu amava mirar os gestos
de minha mãe na lida cotidiana. As vezes eu parava de fazer minha
parte do trabalho e pairava em admirá-la de onde eu estava. Pra
tentar me fazer sentir, aos meus olhos ela era o ser mais lindo e
delicado que existia no mundo. Era minha mãe e era linda, e tinha
nos gestos do corpo a beleza de um rio, sereno e profundo.
Tenho na memória do espaço o quintal
gigante como o céu pra correr entre as nuvens. Pra brincar entre as
plantas que o meu pai plantou e carinhosamente cuidava todos os dias
pra realocar um pouquinho de sua Bahia de brejo, buritis e areia
branca na nossa casa-periferia de Brasília.
E na memória do paladar, depois da
brincadeira de inventar céus no chão com a irmãzinha e o irmão
mais velho, poder comer o cuscuz quentinho com manteiga de garrafa
acompanhado de chá de capim santo, meu chá predileto desde então.
Das memórias singelas e grandiosas que
o meu corpo-espírito acolhe e é fruto.
Com todo amor e saudade