domingo, 16 de dezembro de 2018

em clima de formaturas
eu cheguei na universidade cheia de machucados. porque essa gente que é mulher negra, periférica, de família que migra do nordeste, estudante de escola pública, é machucada desde sempre, desde o nascer, desde muito antes de nascer, desde a sua ancestralidade.
eu cheguei na universidade em um cenário construído historicamente pra não acolher essas e outras experiências, pra forçá-las entrar em um jogo de "só existe aqui se engolir nossas teorias de homens brancos e europeus e estado-unidenses" . Só existe aqui se não for você, se travar uma luta abismal e mortificante de tentar se aproximar do moço branco que domina todos os conceitos, que leu todos os livros de marx, que monopoliza a fala e é o modelo de fala e de trajetória pra todas e todos os outros seguirem.
e eu vou contar p'cês que isso doeu. doeu muito. e dói, porque as estruturas discriminatórias e violentas não acabaram.
mas eu vou contar também que os ventos de tempestade e de serenidade sopraram e arrumaram minha casa interior. que eu encontrei e fui encontrada por jeitos de viver mais perto de ser plena. que eu retornei à casa quando me afastei (ou fui afastada) da forma mais potente de resistir: com as nossas, com minhas irmãs, primas, amigas, mais velhas, com os parceiros, amigos...
e agora nessa pseudo reta final (me formo na licenciatura agora, mas continuo pro bacharel), nesse fim de des-caminho que trilhei, teve um momento-processo que eu percebi que me curar desses machucados era necessário. mais que isso, que era possível. que minhas amigas acadêmicas maravilhosas, são incríveis e doam muito pra transformar esse mundo. que eu posso e que eu sou. que eu também posso transformar esse mundo.
e esse processo passou pela dor de me perceber inferiorizada. em paralelo, pelo reconhecimento e entendimento de como isso acontece com pessoas como eu.
e se eu posso eleger um momento marcante de transformação interna, foi esse que eu disse pra mim mesma, baixinho e serenando no peito e na mente:
"a partir de agora, escreva e seja as suas verdades"
e escrever, pensar e sentir isso tem a ver com criticar as mentiras racistas, misóginas, LGBTTQ+ fóbicas, classistas ... passa por estar rodeada de mulheres que me fizeram sentir e entender que costurar nossas próprias formas de comunalidade, de amor interior é a forma mais curativa e potente de não jogar o jogo genocida do patriarcado.
passa por minha mãe, minha avó, minhas irmãs, amigas, meus territórios, pelas memórias encobertas que nos fazem esquecer ou não saber que nossa força, beleza e luta é ancestral, coletiva e sempre presente, mesmo quando não parece. quando é secreto. quando é estratégico.
enfim, termino essa primeira etapa da graduação em processo de cura, contente por conseguir compartilhar minhas verdades, fragilidades e forças
quedo e encerro um ciclo com bell hooks, a primeira intelectual que tive contato pra conseguir encontrar minhas verdades e me curar dos machucados
“Encontrei um lugar onde eu podia imaginar futuros possíveis, um lugar onde a vida podia ser diferente. Essa experiência “vivida” de pensamento crítico, de reflexão e análise se tornou um lugar onde eu trabalhava para explicar a mágoa e fazê-la ir embora. Fundamentalmente, essa experiência me ensinou que a teoria pode ser um lugar de cura. (...) Quando nossa experiência vivida da teorização está fundamentalmente ligada a processos de autorrecuperação, de libertação coletiva, não existe brecha entre a teoria e a prática.
bell hooks em "Ensinando a Transgredir"

sexta-feira, 2 de novembro de 2018



minha mãe sempre nos convocou pra vida

sempre disse, nos momentos de desespero diante da falta de comida e de justiça:
"pra morrer basta tá vivo"


ou quando a gente, criança, sem noção alguma do que acontecia,
pedia: "mãe, me dá dinheiro pra ir na padaria"
e ela, com a fala dura e olhar triste triste respondia:
"eu não tenho condições nem pra morrer"
"morrer é caro"


minha mãe sempre nos convocou pra vida


sobreviver é urgente
é material, é aqui, agora

e é querer viver plena e com dignidade também


quando a gente diz que tem medo de fantasma
ela retruca dizendo que tem medo é de gente viva
dessa gente, desse Estado vivo das coisas, que é genocida
que mata todo dia
de várias formas


ontem ela pediu pra dormir aqui
pediu aninho entre eu e minha irmã
que nem quando éramos crianças e dormíamos em cinco num cômodo só
aninhadas à ela
foi o momento em que mais me senti segura durante todo o dia

nossos medos e sonhos
tecendo resistências

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

acordei com dificuldade de respirar
nó no peito
que será que eu sonhei?
raramente lembro meus sonhos
que será que significa não lembrar dos sonhos?

cinco da manhã:
vou manter foco, chegar antes da aula terminar
duas horas pra chegar na universidade
duas horas odiando com toda força como o mundo teima em ser horrendo
depois disso não tenho tenho mais tempo de sentir ódio
... até o proximo busu

não consegui
cheguei atrasada de novo
sono
que inferno, não consigo prestar atenção

voltar pra casa
noite
congestionamento
mulheres sozinhas e aflitas esperando o ônibus em paradas desertas
faço uma oração
peço que as protejam
baixinho rogo a prece:
que ela chegue em casa, que eu chegue em casa
sem sofrer nenhuma violência

quantas mulheres esperam sozinhas ?
sofrem sozinhas ?

liguei pro meu pai
avisei que chegaria tarde
que não se preocupassem
(pedindo internamente que ele se sensibilizasse e fosse me buscar na parada)

hoje eu acordei com nó no peito
com medo de viver

cheguei
falta só mais um pedaço de caminhada sozinha
respiro fundo e vou
sempre corro nesse fragmento de caminho da parada até minha casa
será que meu pai vem?
tenho medo

hoje eu acordei com nó no peito
com medo de viver

na metade do caminho e do desespero
minha mãe
feito ouro encantado
 ilumina de cuidado meu caminho

brigo com ela
meu pai sequer avisou que eu chegaria tarde
por que a senhora sempre vem sozinha?

há várias maneiras de estar sozinha
ela me diz