sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Quando criança o pai sempre brincava comigo e meus irmãos 
Brincava de inventar e repassar histórias do mundo fantástico de lobisomens e mulas sem cabeça da terra-Bahia que chama de seu lar até hoje,  diante da esperança de um dia voltar
 quando se sente preso na terra-Brasilia

Brincava de confeccionar pipa de papel e sacola pra sentir junto da gente a sensação mesmo que ilusória de liberdade ao vê-las voarem supostamente livres no céu  

Meu pai sempre foi um homem singelo.
 Sereno e calmo apesar das intempéries da vida
Inventa e reinventa a vida a partir de qualquer material considerado lixo
Vigiando casas e prédios inteiros durante a noite pra assegurar a vida de uns enquanto temia a total falta de segurança dos seus 
Pintando paredes coloridas de sonhos e os oferecendo a nós 

Sempre retirando da escassez mundos possíveis de se viver com dignidade 
Meu pai é dessa gente que improvisa sonhos e doa aos filhos e filhas 
Não ocupa nenhum cargo de alto escalão na sociedade, está do lado da desigualdade que retira de seu grupo qualquer possibilidade subsistência pra viver e almejar  

Guerreiro de ancestralidades adentro na alma e na história 
De um povo que soube sempre improvisar sonhos 
E construir com as mãos cidades inteiras, mundos inteiros pra que nós pudéssemos brincar