Quando criança o pai sempre brincava comigo e meus irmãos
Brincava de inventar e repassar histórias do mundo fantástico de lobisomens e mulas sem cabeça da terra-Bahia que chama de seu lar até hoje, diante da esperança de um dia voltar
quando se sente preso na terra-Brasilia
Brincava de confeccionar pipa de papel e sacola pra sentir junto da gente a sensação mesmo que ilusória de liberdade ao vê-las voarem supostamente livres no céu
Meu pai sempre foi um homem singelo.
Sereno e calmo apesar das intempéries da vida
Inventa e reinventa a vida a partir de qualquer material considerado lixo
Vigiando casas e prédios inteiros durante a noite pra assegurar a vida de uns enquanto temia a total falta de segurança dos seus
Pintando paredes coloridas de sonhos e os oferecendo a nós
Sempre retirando da escassez mundos possíveis de se viver com dignidade
Meu pai é dessa gente que improvisa sonhos e doa aos filhos e filhas
Não ocupa nenhum cargo de alto escalão na sociedade, está do lado da desigualdade que retira de seu grupo qualquer possibilidade subsistência pra viver e almejar
Guerreiro de ancestralidades adentro na alma e na história
De um povo que soube sempre improvisar sonhos
E construir com as mãos cidades inteiras, mundos inteiros pra que nós pudéssemos brincar