quarta-feira, 26 de março de 2014

" É isso aí, você não pode parar
Esperar o tempo ruim vir te abraçar
Acreditar que sonhar sempre é preciso
É o que mantém os irmãos vivos "
 
 
 

Na ilusão infantil de acreditar nas promessas da vida, em seus consolos momentâneos, me lancei na ilusão da felicidade pura, sem manchas de tristeza, uma felicidade descompromissada, não ciente de que enquanto se é feliz a outrem cabe a tristeza. Me entreguei a felicidades análogas as de mesa de bar, de rodas de amigos, de abraços apertados, de aconchegos de mãe, de afagos de irmãos. Me iludiram com suas artimanhas sutis e encantadoras, senti o gozo de alívio eterno que mal cabem em segundos de existência, mas o mel tem gosto de fel. A alegria precede a tristeza, tal como uma criança que se convence de que haverá uma recompensa se se agir de certa forma, mas ao chegar o esperado momento percebe que era só uma promessa pra sufocar seus instintos de criança. Me mostro pessimista , porque a tristeza chegou.

terça-feira, 11 de março de 2014

" Convém ser rico em oposições, pois só a esse preço se é fecundo; para conservar-se jovem é preciso que a alma não descanse que a alma não peça paz " 

Nietzsche

sexta-feira, 7 de março de 2014

"A pratica da Igreja é nociva à vida" Nietzsche

Depois de longas horas trancafiada em um templo, minha mãe chega em casa liga a TV e vai diretamente a um desses canais religiosos, que exalam uma fé contida e retraída, mas que devora seus fieis, aprisiona seus credores. O momento televisionado é de um Deus exposto num suporte de ouro, para sua demonstração de superioridade e grandeza. Superioridade essa que sufoca as humildes manifestações de  paixão que qualquer um dos fieis que assistem ao programa venham a sentir, para que seja essa paixão suplantada e que surja a partir daí certa passividade e cordialidade em aceitar o sofrimento.
A voz que ministra o momento de adoração ao suporte de ouro com o Deus, afirma que a vida não é festa, que o carnaval passou, e que há de se ter cuidado com a felicidade, com a alegria, com a vontade de vida.
Malditos malfeitores, enclausuram minha pobre mãe numa redoma de dor e cólera, para que com a paciência divina advinda dos céus ela aceite mansamente sua morte pra vida.
Uma vez em súbito de incomodo e aflição ao vê-la dias e noites ajoelhada diante de uma imagem a clamar em prantos que Deus a ouvisse, perguntei o motivo de tanta lamentação, eu que voltava de um ótimo lazer com amigos, daqueles que revigoram a alma e nos aperfeiçoam pra vida, me senti impotente e incompleta ao ver que minha alegria sedia espaço pro seu sofrimento. Respondeu que clamava por mim, pelos meus irmãos, pelo mundo.. Lhe pergunto agora Deus, porque fazer isso com uma alma tão pequena? Jogar sobre a ela um fardo tão grande de chegar ao ponto de achar que sozinha pode rezar e chorar pelo mundo inteiro, impedido-a de viver a vida própria. Não bastasse todo esse fardo, desde pequena o que lhe fora ensinado nos templos a viver o hoje para edificar um lugar ao céu, num dito Reino dos Céus, ensinaram-lhe a negar sua única dádiva, a vida, em prol de uma ilusão inventada.


(continua)

quinta-feira, 6 de março de 2014

Eduardo Coutinho, obrigada pelo legado de ótimos documentários.. Por colocar nas telonas gente que nem eu, gente de verdade, histórias com verdade... Obrigada por ouvir.

 " Porque tem gente que passa o dia inteiro na rua e não olha pro céu"

Respirando Clarice...

(...) E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o
que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo
que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não
esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri. Estou em
plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas
é vitória. Eu já poderia ter você com o meu
corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam
anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos
perder algum tempo sem perder a vida inteira.
Mas olhe para todos ao seu redor e veja o
que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado,
acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos
passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro.
Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído
catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos,
tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria
o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do
primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes
sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar
a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a
palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e
de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar

nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos
disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia
disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso
nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado
uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a
tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós
mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não
ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos sorrido em público do que não
sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura.
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa
de cada dia (...)

terça-feira, 4 de março de 2014

Agora lúcida e calma, Lóri lembrou-se de que lera que os movimentos histéricos

de um animal preso tinham como intenção libertar, por meio de um desses movimentos, a

coisa ignorada que o estava prendendo — a ignorância do movimento único, exato e

libertador era o que tornava um animal histérico: ele apelava para o descontrole —

durante o sábio descontrole de Lóri ela tivera para si mesma agora as vantagens

libertadoras vindas de sua vida mais primitiva e animal: apelara histericamente para

tantos sentimentos contraditórios e violentos que o sentimento libertador terminara

desprendendo-a da rede, na sua ignorância animal ela não sabia sequer como, estava

cansada do esforço de animal libertado.

Clarice Lispector- Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres