Noite. Fim de um dia chuvoso. Minha avó diz que o a chuva traz consigo, saudade de quem tá longe. Por forças de uma pandemia mundial estou sem conseguir voltar pra casa.
Passei o dia das mães longe de minha mãe. Passarei o dia do aniversário de meu pai longe dele.
E, hoje, meu acordar me confundiu e me levou pra casa. Bem naquele momento limiar entre o sono e a realidade, aquele primeiro acordar lento em que a realidade parece ter um pouco de compaixão e vai se estabelecendo com serenidade e calma, eu senti-ouvi-pensei estar em casa. E estive.
No sonido da chuva - aquela que traz consigo, saudade de quem tá longe - ouvi as risadas de minha mãe, suas brigas com as nossas gatas que mijam nos tapetes, as conversas entre ela, meu pai e meus irmãos.
Uma ilusão que trouxe afago me despertou pro dia. Um dia depois do dia das mães, que eu passei longe dela. Nesse contexto, muito de mim tem sido dor e preocupação com os meus, principalmente com minha mãe. Tenho sido mais gentil comigo mesma em reconhecer e acolher o medo incomensurável que tenho de perdê-la.
... Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro do ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever ... Glória Anzaldúa
terça-feira, 12 de maio de 2020
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro 2
Ano passado eu descobrir o que é morrer. Várias e várias vezes. Descobri um diagnóstico de transtorno de ansiedade e pânico, junto da percepção de que talvez a ansiedade que paralisa a vida me acompanhou não só nesse ano de crises, mas toda a vida.
Ano passado eu fui descobrindo a ansiedade crescer, me paralisar a vida e me convencer quase todos os dias de que algo muito ruim estava por acontecer, que eu morreria, que alguém que eu amo morreria. Passei a ter um medo tremendo de adquirir alguma doença grave, que quem eu amo adquirisse doenças graves. Eu descobri que talvez essas sensações foram sempre me acompanhando, desde pequena, que ano passado só foi o estopim, a última gota pra transbordar.
Descobri um novo sentido pra canção de Gil "não tenho medo da morte, mas de morrer sim/Qual seria a diferença, você há de perguntar/ É que a morte já é depois que eu deixar de respirar/ Morrer ainda é aqui/ Na vida, no sol, no ar". Morrer ainda é aqui, e eu morri várias vezes. E apesar da agrura e da dor que é passar por isso, eu, que passei, te digo: doeu, eu senti as piores dores da fragilidade, do medo, do pavor, do desespero, mas eu também revivi as doçuras e suspiros de ter passado por tudo e ter sobrevivido, com as forças possíveis que eu tinha pra passar (e ainda estou passando) por aquilo tudo. Mas eu tive apoio, gente disposta e entender e me ouvir. Mas também teve gente que eu amo muito sem conseguir entender e adquirir empatia. Sim, eu aprendi que empatia a gente constrói, e é no diálogo. E se saúde e sofrimento mental permanecem um grande tabu envolto de preconceito a gente vai continuar assim, sem empatia e tato com quem sofre. Eu tive que recolher forças pra ter didática e sensibilidade, no meio da dor toda, pra explicar pra essas pessoas tudo que eu tava passando. E, juntas, a gente foi construindo outra forma de enxergar essa dor, de acolher ela e aprender a lidar com ela.
Também aprendi outra forma, aquela mais egoísta, de ter empatia, que é só quando a gente sente na pele. Olhei pras várias situações que eu fui a pessoa que precisava construir e desconstruir as formas de acolher e entender. Que a premissa não é se "colocar no lugar" da pessoa, porque isso é impossível. Que é muito mais efetivo se colocar ao lado, dar a mão, um abraço, as vezes em silencio mesmo, que não carece dizer, recomendar o que fazer ou apontar o que a pessoa faz de errado conforme o seu critério de errado. Cada pessoa é um universo de complexidade e subjetividade e compreender isso nos desloca um pouquinho do nosso ego.
Foi e ainda está sendo horrível. Não é um processo fácil. Mas eu quero que saiba Elen de agora e do futuro, olhando e entendendo essa Elen que já passou por parte do processo: você tá caminhando, que as vezes parece impossível, mas tu viu depois que o caos passou, que foi possível sim. Tu superou, respirou, voltou a acreditar, se concentrou no que dá pra fazer agora e seguiu seu processo. Mas dói, eu sei.
E pra finalizar quero deixar bem escuro que não superei a ansiedade, não acredito numa cura completa e total. Foi a última coisa que aprendi, porque eu, na minha ânsia virginiana fazia tudo - os tratamentos, a alimentação, exercícios - acreditando que eu me "curaria" da ansiedade como em mágica. Acredito que é muito mais sobre aprender a viver, a acolher, olhar pra si e pro mundo. É sobre um processo e eu estarei permanentemente nele enquanto respirar.
Ano passado eu fui descobrindo a ansiedade crescer, me paralisar a vida e me convencer quase todos os dias de que algo muito ruim estava por acontecer, que eu morreria, que alguém que eu amo morreria. Passei a ter um medo tremendo de adquirir alguma doença grave, que quem eu amo adquirisse doenças graves. Eu descobri que talvez essas sensações foram sempre me acompanhando, desde pequena, que ano passado só foi o estopim, a última gota pra transbordar.
Descobri um novo sentido pra canção de Gil "não tenho medo da morte, mas de morrer sim/Qual seria a diferença, você há de perguntar/ É que a morte já é depois que eu deixar de respirar/ Morrer ainda é aqui/ Na vida, no sol, no ar". Morrer ainda é aqui, e eu morri várias vezes. E apesar da agrura e da dor que é passar por isso, eu, que passei, te digo: doeu, eu senti as piores dores da fragilidade, do medo, do pavor, do desespero, mas eu também revivi as doçuras e suspiros de ter passado por tudo e ter sobrevivido, com as forças possíveis que eu tinha pra passar (e ainda estou passando) por aquilo tudo. Mas eu tive apoio, gente disposta e entender e me ouvir. Mas também teve gente que eu amo muito sem conseguir entender e adquirir empatia. Sim, eu aprendi que empatia a gente constrói, e é no diálogo. E se saúde e sofrimento mental permanecem um grande tabu envolto de preconceito a gente vai continuar assim, sem empatia e tato com quem sofre. Eu tive que recolher forças pra ter didática e sensibilidade, no meio da dor toda, pra explicar pra essas pessoas tudo que eu tava passando. E, juntas, a gente foi construindo outra forma de enxergar essa dor, de acolher ela e aprender a lidar com ela.
Também aprendi outra forma, aquela mais egoísta, de ter empatia, que é só quando a gente sente na pele. Olhei pras várias situações que eu fui a pessoa que precisava construir e desconstruir as formas de acolher e entender. Que a premissa não é se "colocar no lugar" da pessoa, porque isso é impossível. Que é muito mais efetivo se colocar ao lado, dar a mão, um abraço, as vezes em silencio mesmo, que não carece dizer, recomendar o que fazer ou apontar o que a pessoa faz de errado conforme o seu critério de errado. Cada pessoa é um universo de complexidade e subjetividade e compreender isso nos desloca um pouquinho do nosso ego.
Foi e ainda está sendo horrível. Não é um processo fácil. Mas eu quero que saiba Elen de agora e do futuro, olhando e entendendo essa Elen que já passou por parte do processo: você tá caminhando, que as vezes parece impossível, mas tu viu depois que o caos passou, que foi possível sim. Tu superou, respirou, voltou a acreditar, se concentrou no que dá pra fazer agora e seguiu seu processo. Mas dói, eu sei.
E pra finalizar quero deixar bem escuro que não superei a ansiedade, não acredito numa cura completa e total. Foi a última coisa que aprendi, porque eu, na minha ânsia virginiana fazia tudo - os tratamentos, a alimentação, exercícios - acreditando que eu me "curaria" da ansiedade como em mágica. Acredito que é muito mais sobre aprender a viver, a acolher, olhar pra si e pro mundo. É sobre um processo e eu estarei permanentemente nele enquanto respirar.
terça-feira, 14 de janeiro de 2020
" Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro "
Firmo a prece no coração e na mente e a entoo como mantra: "ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro"...
Ano passado eu morri várias vezes, e esse ano eu buscarei nas entranhas as fragilidades e as fortalezas que me guiem em um processo de cura. Esse ano eu não morro!
Eu me lembro que no primeiro dia do ano, logo depois da virada, eu senti que não seria um ano fácil
Prontamente eu associei ao cenário político, porque naquele mesmo dia um general racista, LFBTQfóbico, machista assumiria o poder
Não seria um ano fácil em vários sentidos. Nesse mesmo dia esse mundo e eu perdemos a Leona. Uma mulher trans, periférica, intensa, cheia de vida e amor, de um sorriso tão gigante e iluminado. Eu soube no dia seguinte essa perda e chorei muito.
foi a finalização do meu primeiro curso de graduação e havia descoberto que fui classificada em um concurso de cargo temporário como educadora. Tive muito medo, questionei se era isso mesmo, ser educadora, que eu realmente queria. Entrei em um ciclo sem fim de medo e ansiedade sobre isso. Decidi não assumir a vaga a que fui chamada e isso gerou em mim um processo de culpa e medo imensos.
Tentei viver depois disso, aproveitei o carnaval como nunca antes e logo depois a minha primeira e a pior crise de pânico-ansiedade. Acho que foi ali que as mortes começaram. Não sabia que uma crise de pânico imitava a morte até ali. Era como se estivesse aos poucos e lentamente sumindo. Passei a noite e um dia com uma angustia e aperto no peito que logo em seguida se manifestaram nesse pico de ansiedade que convence o corpo e a mente de que algo muito ruim estava por acontecer.
Convivendo com a ansiedade entendi melhor esse verso "ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro". Porque ano passado eu morri várias vezes, lentamente, ao mesmo tempo que em uma velocidade absurda. Mas esse ano eu não quero morrer mais.
Terminei 2019 com a decisão de começar um tratamento com medicação. E por isso os efeitos colaterais se arrastaram pra o início desse ano. Eu sou dessas de acreditar que a forma como a gente começa o ano irradia um pouco para como esse ano será vivido. No início, com a minha mente virginiana, triste, pensei que o ano inteiro seria esse momento horrivel dos efeitos colaterais.
Mas percebi que há um outro ponto muito mais positivo que é o de pensar que esse ano eu vou ter mais força e fé pra acolher minhas fragilidades e me encontrar com um processsode cura e auto-amor.
"Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro"
Asssim seja
Axé!
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