sexta-feira, 9 de maio de 2014

 Deus existia de início, tudo era mais intenso e próximo de mim, eu era a matriarca do mundo, podia distorcer e pegar nas coisas inalcançáveis com uma simplicidade absurda, numa sequência circular de desfazer, fazer e refazer as coisas. Houve uma sincronicidade com o universo e com os meus dois amigos presentes- companheiros de loucura- inacreditavelmente intensa e irreal, os três elementos, eu o mundo e meus amigos sentimos ao mesmo tempo, paramos no tempo ao mesmo tempo- que ironia. O tempo não nos era mais palpável como nos é normalmente, só quando perdi a noção do tempo que percebi o quanto nós o torturamos e fazemos dele uma simples contagem progressiva da vida. Eu era brinquedo nas mãos dele, brincou com a minha sanidade e jogou toda raiva que ele tinha dos humanos em mim, me oprimiu como um autoritário tirano, me atirou no espaço sem sua presença, sumia e quando voltava me massacrava com sua incerteza.
 Deus existia e o diabo também. Dois grilhões envoltos em minha cabeça, um puxando para o lado do esquerdo e o outro pro lado direito, me anulavam, mas minha mente se manteve inerte, forte e firme, só naquele momento senti a fortaleza que de mim emanava.
 No meio da coisa o desespero tomou conta e alastrou sua chama, tentei com todas as forças sair da psicose surreal em que me encontrava, uma máquina tomou conta do meu corpo e junto com o tempo me enganavam, falavam e viviam por mim uma vida a parte, fora daqui. Tive medo de não recuperar a centralidade, me desprendia de mim mesma e quando voltava, nos poucos segundos que conseguia me sustentar na minha alma, travava com todas as forças uma luta com a realidade para me convencer dela. No fim o único medo era de aquilo durar o resto da vida, se bem que toda aquela loucura durou milênios, eu nem sei quanto tempo eu perdi, quanto tempo eu vivi, quanto tempo eu senti de fato. Literalmente sai do meu corpo e me perdi num vácuo de ideia e percepção alucinantes.
 Já se passaram algumas tantas horas de todo o ocorrido e ela, a loucura, ainda chama meu nome, eu me agarro forte à realidade pra ela não fugir de novo. E tudo começa a voltar ao normal, eu um ser humano preso e dependente de realidade, mesquinho e regrado em suas ações, incrédulo e afetado pelas certezas do mundo.

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